Destino de veraneio privilegiado de uma parte da elite nacional entre as duas guerras mundiais, a Curia é, no entanto, uma povoação recente. Nos inícios do século XX resumia-se a um despovoado de campos agrícolas, cujas nascentes se usavam na irrigação das hortas e no trabalho do linho. E, meio século antes, constituía um baldio (reservado aos habitantes do vizinho lugar da Mata), cujo aforamento decorreu presumivelmente na década de oitenta ou noventa.

Na região existia já alguma crença nas virtudes medicinais das suas águas, uma vez que um dos engenheiros encarregados da construção do caminho de ferro da Linha do Norte, de apelido La Chapelle, teria, por volta de 1863, ensaiado com sucesso um tratamento. Este episódio constitui uma das primeiras referências às virtudes das águas da Curia. Nas décadas subsequentes, apesar da precariedade das instalações, reduzidas à poça formada pela nascente e a uma barraca de pinho como balneário, a afluência de doentes vindos das povoações mais próximas parece ter-se acentuado. Como consequência, surgiu em finais do século a preocupação de proceder a uma análise química da água. Os resultados mostraram que era equiparável à das famosas estâncias francesas de Vittel e de Contrexéville.

O arranque das termas ficou a dever-se à iniciativa de alguns notáveis da região, que criaram a Sociedade das Águas da Curia em 1899 e as abriram formalmente ao público em 1902 ou 1903. O número de aquistas, modesto no início, não parou de aumentar, ultrapassando os 2200 em 1920 e os 2500 em 1923. Na sequência da crise económica de 1929, a frequência baixou continuadamente até chegar aos 1040 em 1940. A II Guerra Mundial constituiu um período de recuperação, que prosseguiu, apesar da quebra em 1949-1951, até 1974, ano em que se inscreveram 5035 aquistas.

Enquanto a Sociedade das Águas construía estradas e avenidas, criava o parque, abria um grande lago e edificava balneários cada vez melhores, uma geração de hoteleiros promovia a construção de pensões e de hotéis. A Curia que hoje admiramos é, na sua essência, o resultado de um ciclo construtivo ocorrido nos anos dez e vinte.

A ida às termas não visava apenas beneficiar das virtudes terapêuticas das águas medicinais. Uma estância termal devia ser uma «cidade de águas», proporcionadora de convívio, desporto e diversão. Isto significa que, em torno da nascente, devia existir um parque com dimensões capazes de proporcionar passeios, várias formas de divertimento e um estreito contacto com a natureza. Assim, para além das construções termais, da alameda de entrada e de um jardim junto aos balneários, todo o restante espaço foi preenchido por um frondoso parque com a área aproximada de 72 hectares. O lago, aberto em duas fases durante o período de 1912 a 1924, manteve-se durante várias décadas como o maior lago artificial da Península Ibérica.

Sob a direcção de Manuel Pinto de Azevedo, a Curia beneficiou de melhoramentos importantes nos anos de 1943 a 1946. Além da remodelação das instalações balneares, construiu-se uma Casa de Chá, campos de jogos, instalou-se um elevador de origem suíça nos balneários e remodelou-se o Hotel das Termas situado no interior do parque.

O crescimento das termas foi acompanhado pela criação de vários estabelecimentos hoteleiros com valor artístico considerável, como a Pensão Rosa, O Grande Hotel, o Hotel Boavista, o Hotel do Parque e, sobretudo, o Palace Hotel. Uma parte deles ficou a dever-se a pessoas das redondezas, sem qualquer tradição familiar no ramo, e a personalidade de renome nacional nesta área, nomeadamente Conrad Wirssmann e Alexandre Almeida.

A Curia reflete exemplarmente as vicissitudes do fenómeno turístico durante o século XX. O primeiro terço foi a época áurea das termas, escolhidas pelas elites por motivos essencialmente lúdicos. Na Curia, sucediam-se os bailes, os concertos, os jantares à americana, sessões de cinema, jogos de ténis, etc… Entre 1930 e 1970, o veraneio volta-se decisivamente para a praia, as termas acentuam a vocação terapêutica e são tomadas pela inércia. O termalismo social patrocinado pelo Estado após o 25 de Abril de 1974 revelou-se insuficiente para retirar a Curia dessa situação, mas popularizou ainda mais a clientela. Na última década, enquanto desceu o número de aquistas, aumentou o de visitantes, atraídos pela paisagem e pelo património histórico e artístico. A preservação quase integral do ambiente dos anos vinte constitui um dos maiores motivos de atração do Palace Hotel, a que os cineastas não têm ficado indiferentes.

Como outras termas, a Curia constituiu um dos locais de acolhimento de refugiados da II Guerra Mundial. Franceses, polacos, belgas, checos, etc, chegaram no verão de 1940, aqui aguardando documentação que lhes permitisse, na maior parte dos casos, atravessar o Atlântico. Calcula-se em catorze mil o número de refugiados em trânsito só neste ano. Entre Maio e Agosto de 1943, viveram no Palace Hotel duzentos voluntários de guerra belgas, que haviam permanecido dois anos em campos de detenção espanhóis e vieram a participar no desembarque dos Aliados na Normandia.

Retirado do livro: 

Anadia-Relance histórico, artístico e etnográfico, de 2001

Nuno Rosmaninho

Ana Paula Figueira Santos

Rui Miguel Rosmaninho Gonçalves

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